por Joaquim Oliveira
Cada vez que visito a Quinta e o Palácio da Bacalhoa descubro "novidades" que me surpreendem agradavelmente. Umas, "descubro-as" por acidente, outras, porque deliberadamente sigo as pistas deixadas por conceituados estudiosos deste lindíssimo espaço.
Na intenção de que a crónica dessas "descobertas" e algumas transcrições retiradas dos roteiros que me têm servido de guia para essas maravilhosas viagens pelo passado, vos aliciem para meus cúmplices de jornada, tomo a liberdade de, para já, vos propor uma visita guiada :
Espero por vós junto ao portão que actualmente funciona como o principal da quinta. E, como faria o " Tio Jones ", - saudoso e dedicado caseiro e cicerone deste histórico e monumental espaço - , chamo-vos à atenção para o brasão que encima esta entrada, repetindo de memória as palavras que dele ouvi em idêntica circunstância:
- " O brasão que observamos está dividido em quatro partes por dois riscos em cruz, e em diagonal da direita para a esquerda tem em duas partes as armas de Portugal, e tem em diagonal da direita para a esquerda, também em duas vezes, as cinco flores de Liz das armas de França."
E continuaria o bom do "Tio Jones" ;
- " Este brasão (o segundo dos Albuquerques) foi usado por D. João Afonso, filho de D. Afonso Sanches, cuja esposa era da Casa de França.
O primeiro brasão, usado por Afonso Sanches, filho bastardo de D. Diniz e senhor do Castelo de Albuquerque, é o que está do lado de fora do portão norte do pátio."
Já agora, diria o cicerone : " uma vez que não vamos ver o outro brasão, devido ao local onde está que não é acessível, digo-lhes que esse primeiro brasão, o de Dom Afonso Sanches, tem uma cruz de hastes largas, ao centro, de cima a baixo e ao centro de lado a lado. Para além da cruz, tem quatro partes aos cantos. Na cruz tem cinco castelos, sendo um ao centro e outro ao meio de cada uma das hastes. No intervalo dos castelos tem leões, que ao todo são quatro. Nos quatro cantos tem as armas de Portugal."
E com esta recordação, convido-vos a entrar no pátio para prosseguirmos a viagem :
Transposto o portão depara-se-nos um vasto e asseado pátio com a sua galeria de 13 graciosos arcos de traça florentina, de pleno címbrio, apoiados em esbeltas colunas, tudo em brecha da Arrábida e encimada por telhado de antiga telha portuguesa que cobre as cavalariças e os anexos do palácio . O recinto é vedado por altos muros, (50) onde no lado norte, oposto ao portão de que nos servimos para entrar encontra-se um outro, também brasonado e do qual já falei.
A Nascente a fachada do palácio, austera, com duas janelas por banda tem ao centro uma escadaria de três patamares, em alvenaria, que corre paralela à parede do edifício e voltando sobre si noutro lanço a alcançar a pequena varanda superior, dá acesso ao salão do piso superior. Esta escadaria nem sempre foi como se nos apresenta actualmente. Segundo Joaquim Rasteiro: " A escadaria que dá entrada para o palácio tinha por guarda uns corrimãos supportados por pilares intervallados com balaustres de marmore branco, e no patamar superior ainda assim é (1895); no medio, porém, formou-se um mainel massiço, enchendo os vãos da gradinata de alvenaria revestida de azulejos de relevo, do genero que mais abunda na quinta, e em tudo dissimilhante do azulejamento interior do palacio. Ainda aqui ha a notar que os azulejos da escadaria são de tres desenhos differentes ... Esta alteração na gradinata da escadaria não é restauração, mas remendo. Em 1631 ainda todo o corrimão era sustentado por balaustres. "
Os azulejos que revestem a escadaria, os alegretes e as molduras das quatro janelas da fachada são peças mudéjares. De notar que os das escadas estão dispostos de ângulo ao alto (em diagonal), disposição inusitada e sobre a qual se falará no capítulo dedicado especificamente aos azulejos.
Dois torreões de forma cilíndrica com cúpulas de gomos encimados por pirâmides, rematam a fachada. (...) Terão o aprumo de um Marte, de cuja raça descendem, mas de um Marte que despiu a sua armadura para veranear no campo com damas gentis ..."
Num edículo , que encima a porta de entrada do palácio , vê-se um busto de barro, de proporções naturais e de boa execução. "Mostra um varão na força da vida " e é crido como a reprodução fiel de Albuquerque, filho. O lugar que ocupa é realmente o que compete ao dono da casa.
Os restantes bustos dos demais edículos das janelas da frontaria são de fino mármore e segundo se pode julgar representam figuras mitológicas.
No friso inferior à cornija que orla esta porta lê-se « Ecce elongavi fugiens et mansi in solitudinem » (48) que se pensa ser a expressão dos desejos de ocasião de Afonso Brás, enquanto um pouco desiludido com o rei D. João III , aqui escrevia "Os Comentários do Grande Afonso" .
Depois de contemplar o pátio, entra-se pelo torreão do lado direito, passamos por um túnel, e por escada estreita subimos à galeria virada a oeste. Tem seis arcos abertos sobre o jardim, o lago e a Igreja de São Simão. É um interior de habitação, como que de intimidade. Nesta loggia observamos o forro ornamental e as alegorias dos rios Eufrates, Mondego, Nilo, Danúbio e o Douro - metidos em cartelas de expressão flamenga - e personificados em figuras humanas com vasos donde saem as águas que dão origem aos rios e que, segundo Joaquim Rasteiro: "palestram amigavelmente entre si ".
As alegorias dos rios, tomando como exemplo a do Douro, foram assim descritas: "(...) A figura mostra o systema de um adorno de paredes por azulejos ... O desenho executado em azul, amarello, verde, e castanho sobre fundo branco é circundado de uma bordadura de ovolos, e cobre a parede até á altura de 1,72m. Os paineis (Kartushen) polycromos representam personificações dos rios principais de Portugal ... " (Th. R.)
Os azulejos ornamentais são delicados e de cores calmas e deles falarei mais adiante. Deixamos este local, invertendo o sentido do percurso pelo qual o alcançámos e tomamos o caminho do jardim e da quinta.
Antes de se iniciar o périplo por este esplendoroso espaço, convido-vos a abarcar com a vista todo o horizonte em redor e, vêdes que ele é dividido em dois terraplenos por um muro que suporta as terras mais altas. A cerca inferior condiz com a arquitectura do palácio : em ambos podemos ver os torreões cilíndricos com as suas exóticas cúpulas de gomos.
O terrapleno superior tem nos ângulos do lado norte dois pavilhões chamados, um a casa da Índia, por ter tido telas (Panos de Arras) representando as cidades onde neste antigo "Estado" se distinguira com mais valor o Grande Afonso, o outro casa das pombas. Nos ângulos sul ficam, num o palácio, no outro o lago, casa da pena e mais dois pavilhões ligados por loggias.
Os torreões da cerca inferior são seis. Em quatro destes torreões, ou cubelos, (como lhes chama o tombo do Morgado) foram, em tempos, "aplicados a estações da via sacra, com altares de mármore preto, forrados de azulejos nas frentes e, por não bastarem, meteram-se-lhes de premeio uns nichos nos muros para completarem os sete passos da Paixão de Christo" .
Olhando para as fachadas que nos envolvem reparamos que a que olha o norte, não é simétrica em todas as suas partes, mas do mais belo efeito perspectivo. Dois torreões, os mais altos, extremam-na, como a do leste. "Caminhando d'este lado para o poente , ha uma jannela com tarja de azulejo em volta , sobre ella a cornija, distanciada como as outras, e por cima um nicho já ermo: seguem-se duas galerias sobrepostas, abertas por escadas, verdadeiras loggias. A arcada superior repousa em sete colunnas doricas assentes n'um stylobata, ou base commum; a inferior pousa sobre quatro pilares assentes no pavimento. Par ornar os seguintes dos tres arcos inferiores, ha quatro bustos de alto relevo, saindo de outros tantos medalhões circulares - imagines clypetae - que attrahem as attenções do amador ...
Representam os dois extremos homens, os do centro damas. A julgar pelos typos serão, o infante D. João, mestre de San'Tiago, de barba e farto bigode, e sua mulher D. Izabel, a infanta D. Brites e seu marido o infante D. Fernando, com a barba toda, mas sobre o curto.
O espaço que vae d'estas loggias ao torreão ocidental é occupado por tres janellas desigualmente distanciadas. O serviço da galeria inferior para a quinta é por uma graciosa escadinha em espiral.
As arcadas abertas e ainda sobrepondo-se dão ao todo uns odores de Italia, um arremedo fujitivo das construcções florentinas e de Veneza, quer olhando jardins e terreiros, quer mirando ao longe, como na fachada norte, quer espelhando-se nas águas, como no lago, e estas, distanciadas das restantes, seriam uma adaptação das novas construcções ao genero commum. "
Prosseguimos a visita:
Alguns passos à frente e depara-se-nos um banco de Jardim em alvenaria. No espaldar tem em azulejo a representação do "Rapto de Europa" e na frente do assento uma espécie de carrancas ou rostos emoldurados. Pelas cores vê-se que é uma obra unitária. As cores são diferentes de todas até agora vistas. São menos vivas, mais agradáveis e bonitas. Rafael Salinas Calado disse ser uma obra de Talavera de La Reina.
Seguindo até ao lago, pelo arruamento, podemos ver no pavimento algumas peças das famosas tijoleiras de 0,20 x 0,10. Do lado do muro vamos observando os alegretes e bancos. Do lado do muro estes alegretes são a espaço interrompidas por cadeiras de alvenaria revestidas de azulejo; do lado oposto, também a distancias certas, há uns cubos mais elevados para plantas de maior porte. " O azulejo d'estes cubos é sempre de qualidade superior ao dos alegretes, variando no desenho e todo de relevo. Entre cubo e cubo e entre cadeira e cadeira , nos pannos de cada alegrete encontram-se quatro formosos azulejos de relevo, assente em diagonal: são dos mais apurados no gosto, no desenho, nas tintas e no esmalte. O fundo d'estes azulejos é branco, os desenhos folhas e flores de phantasia, e n'uns apparecem uns fructos, que na fórma se approximam da romã. Os desenhos são combinados para quatro azulejos". (Podemos observar algumas espécies de mudéjares e também de majólica. Vê-se também um belíssimo enxaquetado com peças brancas, verdes, azuis e amarelas, de amarelo torrado).
Antecedendo a Casa do Lago ou Casa de Prazer há um pequeno pátio, descoberto e com alegretes. Os alegretes são forrados com grandes peças cerâmicas com desenhos de grotesco, para as quais chamo a vossa atenção, e delas falaremos mais adiante.
A Casa do Lago, - recorde-se - compõe-se de três pavilhões ligados entre si por galerias. Pavilhões e galerias abrem-se para o Lago, os primeiros por portas, os segundos por uma arcada de cinco vãos. Particularmente belas são as portas em correnteza, que resultam muito esculturais com suas largas ombreiras quinhentistas, arredondadas, e as suas cornijas sobrepostas por nichos, bem depressa uma componente essencial das grandes casas portuguesas.
Este tipo de pavilhão , muito renascentista vem inscrever-se também na tradição dos jardins árabes, com seu tanque de irrigação e a sua decoração de azulejos.
Joaquim Rasteiro, diz o seguinte deste espaço : "(...) Este recinto em 1528, pela venda dos Vila Real, era parque, agora é esta parte a mais aprimorada ... Encontra-se aqui o torreão; trocou-se, porém, a fórma cylindrica pelo cubo e substitui-se a cupula por telhados pyramidaes. As galerias de sobre o lago não destoam das do palacio, mas aos pavilhões quadrilados que as extreman deu-se a cobertura de telhas acoruchadas das torres angulares d'esta parte da quinta ..."
A face oeste do lago toca o muro que forma um grande paralelograma de trinta metros de largura, emoldurado numa tarja longa de azulejo de relevo, reparado posteriormente com azulejo de igual desenho, mas de superfície lisa. Dentro desse quadro é a entrada da água que vem pela boca de um golfinho (ou baleia estilizada) tendo por cima um edículo em que esteve um Tritão. Há mais dois nichos igualmente ermos; por baixo do que fica mais a sul, numa lápide, lê-se: (48) l"Tempora labuntur more fluentis aqua" ao que do outro lado outra lápide lhe corresponde ; " Vivite victuri moneo mors omnibus instat" . Quatro grandes medalhões circulares ficam entre os nichos e como estão pouco acessíveis à nossa vista, vou descrevê-os com algum pormenor, socorrendo-me do texto de Joaquim Rasteiro;
"(...) Estes medalhões são de alto relevo, apresentam bustos de tamanho quasi natural , vistos até mais de meio peito. Os medalhões medem de diametro 0,54 m só por si, e com as cercaduras 0,78 m. Estas cercaduras são em forma de corôa, tecida de folhagem , flores e fructos. A primeira, terceira e quarta parece terem sido menos boas e estão muito mutiladas. da segunda tratarei em separado.
São sem duvida da escola dos Della Robbia, notando-se variantes na côr dos fundos. Andrea della Robbia foi quasi constante na côr azul dos seus fundos, sendo este um característico das suas composições. Giovanni variou na côr dos seus fundos e usou mais desenvolvidamente a polychromia ...
A partir da casa da penna :
1.º - Busto de homem com pouca barba, parecendo um mancebo que entra na puberdade, tem cabello comprido puxado para trás das orelhas. Tem corôa de louro. A imagem é bem modelada, olha á esquerda. Não foi (ao que parece) colorida, nem é esmaltada. O medalhão é de barro vermelho, a moldura de grés amarellado e brando.
2.º - Está em quasi perfeito estado de conservação, sem deixar de ser tocado por alguns tiros de pedra, ... relevo alto, fundo arroxeado, busto de mulher como que mirando as aguas. O peito está todo a descoberto, apenas um manto de tecido ligeiro, que se traça debaixo do lado direito, vem prender-se sobre o hombro esquerdo. este manto é de um roxo quasi transparente. O cabello louro, entrançado na parte anterior, cáe em madeixas nos hombros até ao peito. Um véu, ou cousa assim de tecido leve, azul muito claro, nascendo da testa, onde tem um pingento, segue pelo meio do penteado, até envolver-lhe de todo a parte de trás ; genero de toucado de phantasia. A carnação é clara, as faces rosadas, olhos e supercilios negros. Typo italiano. O esmalte de toda a figura é nitido e transparente.
A moldura ... tem mutilações, ainda que pouco importantes. A sua composição é de folhagem e fructos polychromicos esmaltados. Os fructos, commeçando do logar onde os relogios de torre marcam o meio dia, são :
2 pepinos, 1 nabo, 2 marmellos, 1 romã, 1 pera, 1 cidra, 2 cachos de uva branca, 1 nabo, 1 marmello, 1 cidra, 2 cachos de uva tinta. Este circuito engrinaldado é de grés e feito de peças unidas ao assentamento ...
3.º - Medalhão circular ... Moldura muito mutilada. Busto de mulher. Olha á direita. Toucado fluctuante. Manto preso sobre o hombro direito deixando a descoberto o peito esquerdo. Não é esmaltado. Se foi colorido, o tempo destruiu-lhe as tintas. A moldura de folhagens e fructos engrinaldados é polychomica esmaltada, na maxima parte destruida.
4.º - Medalhão como os anteriores no tamanho e moldura. A figura, a que falta a cabeça, era de homem. É polychromo esmaltado".
Seguindo a mesma parede, na rua que vai dar à Casa da Índia, encontramos nichos, intervalados por medalhões. As cercaduras desses nichos, os pilares que as sustentam e todo o mais trabalho em alvenaria são de uma perfeição e nitidez, que não pode exceder-se; todas as arestas são finas como que buriladas. Todos os nichos estão ermos.
Agora, mais de perto, observamos que os medalhões têm o fundo azul, e são menores que os antecedentes e com a grinalda que os envolve terão cerca de 0, 64 m de diâmetro. A grinalda em forma de coroa é tecida de folhagem verde, flores azuis ou amarelas de cinco pétalas, pequenos frutos como romãs verdes e nozes e uns outro frutos, parecendo-me peras amarelas. É feita de peças combinadas e reunidas no assentar. Os medalhões são cercados por filetes concêntricos. Têm bustos de baixo relevo. " A imagem, de grês, foi moldada sobre um sob-molde de argila vermelha, a que ficou adherida. Medalhões e moldura são esmaltadas".
O primeiro medalhão, junto ao lago, tem um busto de homem, de perfil sobre a direita, coroado de louro e está pouco mutilado. o segundo, terceiro, quarto e quinto, são bustos de mulher e estão bastante destruídos. O sexto, "é de um "mancebo imberbe. Tem capacete, de que sáem umas pequenas azas e tranças entrelaçadas. Veste armadura fechada ao alto do peito por uma pequena máscara. No capacete, nas bucculas e no thorax ha listas amarellas e verdes. Será um Mercúrio de convenção ou arremedo de um busto de Scipião, célebre esculptura do fim do seculo XV.
Estes bustos são como os das medalhas, cabeça e collo de perfil."
Também na parede que pelo sul segue a rua que vai do jardim ao lago há doze medalhões, correspondendo a cada um deles uma das esferas ladeadas por pirâmides, que coroam o muro. Estes medalhões têm o mesmo diâmetro dos anteriores e a moldura é a mesma, com pequenas variantes.
No rebordo da décima primeira moldura que cerca o busto de Octaviano há uma assinatura. Pensa-se ser do artista ou do fabricante. Sobre esta assinatura diz J. Rasteiro : "(...) Pareceu-me dever ler ali Donus Vilhelmu, isto é, mestre Guilherme, porque a palavra donus, contracção de dominus, teve aquella significação, como tambem mestre se disse ao jurisperito e ao medico... Em 1628 existia em Delft, na Holanda, um ceramista Willem (Jacobus) ; é possível que o fabricante das nossas molduras fosse pae ou avô d'estes ."
Caminhando do palácio para o lago identificam-se os doze bustos:
1.º - MARC. LIVS. CRAS. ( Marcus Livius )
2.º - TRAIANVS. IMP. ( Trajano )
3.º - SCIPIO. AFR. ( Scipião )
4.º - DIVI. IVL. CZES. ( Júlio César)
5.º - ANIBAL. CARTA. ( Aníbal)
6.º - (destruído)
7.º - MVTIVS. SCE.
8.º - NERONE. CLA. ( Nero )
9.º - ALEXA. M. ( Alexandre Magno )
10.º - POMPEIVS ( Pompeu )
11.º - OCTAVIAN. AVG. ( Octaviano )
12.º - (destruído)
Falta-nos visitar detalhadamente a Casa do Lago, ou Casa de Prazer.
Reclamo aos meus companheiros de visita, a sua especial atenção para o revestimento deste espaço. Digo-lhes que para além do que vão ver, têm necessidade de ouvir, - com a máxima atenção - as explicações que se vão seguir, por as considerar essenciais para se valorizar e compreender todo este valioso e ímpar património. Digo-lhes, ainda, que neste espaço, está a génese da azulejaria portuguesa e parte importante da história da técnica e arte da azulejaria universal.
Para dar cumprimento ao que indiquei como essencial, teremos que nos socorrer de habilitados testemunhos técnicos e documentais, de transcrições extraídas de tratados sobre o assunto, (53) assim como do conhecimento empírico que fui adquirindo, nomeadamente daquele que a convivência e diálogo constante e íntimo que tenho mantido com este espaço me tem proporcionado.
Acresce, ainda, que " se a Quinta da Bacalhoa como utilização de uma clara gramática decorativa italianizante, apresenta um programa formal de pátio, casa, jardim e pavilhões, ele não se mantém dominante na composição de cada uma das partes" . Como tal, por todas e por cada uma destas circunstâncias, muitas das explicações técnicas e teóricas que se seguem, não se circunscrevem somente á Casa do Lago e espaço envolvente, mas também ao todo arquitectónico que constitui a Quinta e Palácio da Bacalhoa, por onde se dispersa toda essa decoração.
Postas estas considerações, entremos na antecâmara da Casa do Lago: O tal pequeno pátio aberto de que já se fez referência, e que merece ser "revisitado", muito especialmente o revestimento dos alegretes, pintados no género grotesco e atribuídos ao mesmo pintor dos frisos dos pavilhões, o ainda não completamente identificado "... TOS" . Tal incógnita não se apresenta a alguns estudiosos da Bacalhoa, como - por exemplo - o Dr. Theodor Rogg que no também já citado trabalho de 1895, escreve: "(...) Francisco de Matos não foi só um pintor aprimorado, mas um ornamentador excellente, um decorador de genio. Com faxas ornamentaes, ou humuristicas ... vestindo os alegretes de pinturas grotescas ... " .
Estes frisos grotteschi e humoureschi dos alegretes, não são repetitivos, compondo-se de figuras e personagens fantásticas; pássaros com cara humana, de grandes orelhas e ornados de cornos; libélulas fantasiadas; flores e frutos estilizados, grifos ...
Percorrida esta antecâmara, com a necessária atenção, entrámos no primeiro compartimento da Casa do Lago.
Acabados os habituais comentários dos visitantes, impressionados com o impacto visual que lhes provocou a deslumbrante panorâmica proporcionada pela perspectiva das portas das câmaras, em "correnteza" e da visão do lago reflectindo a fachada dos pavilhões, cedo-lhes o texto de apoio que se segue, - imprescindível como já referi - o qual tem um preâmbulo, tornado necessário para escalonar cronológica e tecnicamente as "idades azulejares" deste valioso património.
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