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A Quinta da Bacalhoa é justamente considerada como "o mais importante repositório da azulejaria primitiva em Portugal" . A sua história foi feita por Joaquim Rasteiro, na sua " Monographia Histótico-Artistica" denominada "Quinta e Palacio da Bacalhoa", editada em (1895) .
            Também, há já vários anos, o  Padre Manuel Frango de Sousa, pároco das freguesias de São Simão e São Lourenço tem dedicado particular atenção a esta quinta, complementando e, por vezes rectificando  a versão anterior, através de uma criteriosa e persistente investigação. 
            Quanto aos azulejos, muitos os têm estudado e investigado, entre os quais é da mais elementar justiça destacar o Engº. J. M. Santos Simões, e outros estudiosos, os quais vão sendo citados no decorrer deste trabalho.

"(...) O estudo da azulejaria de aresta da Bacalhoa deveria constituir motivo para mais longa consideração ... limitar-nos-emos a chamar a atenção para aqueles que, em absoluto, fogem aos modelos convencionais produzidos em Sevilha ... e dos compartimentos da chamada «Casa de Prazer» ou «Casa do Lago». Independentemente dos desenhos ou padrões, o que imediatamente fere a atenção é a sua organização decorativa, a qual vive da disposição diagonal dos azulejos, constratando com a colocação normal, única conhecida em Sevilha .
            Não só a qualidade técnica é excelente como as composições dos desenhos revelam preocupações e requintes estéticos, do mais puro renascimento.
            Não julgo que estes azulejos possam ter sido feitos fora de Sevilha, pois só ali se produzia tal qualidade; no entanto a preocupação decorativa da colocação demonstra uma nova visão de monumentalidade que já é bem portuguesa. Tal disposição insólita na Andaluzia, pode ter sido ordenada pelo reconstrutor da Bacalhoa, pessoa que demonstra um extraordinário sentido de equilíbrio e de bom gosto. Temos para nós que os azulejos deste tipo sevilhano da Quinta da Bacalhoa foram os Últimos que se instalaram em Portugal, encerrando o ciclo do azulejo mudéjar ". (Santos Simões)

            Mesmo sob o ponto de vista técnico, notam-se já em alguns azulejos certas discrepâncias dos sistemas ortodoxos de  « aresta ». As arestas parecem já não ter a função de separar os esmaltes mas apenas o de conferir « relevo » e valor plástico à decoração. Na verdade nota-se que os esmaltes cobrem essas « arestas » como se tratasse de pintura. A percentagem de estanho é cada vez maior, o que leva a crer que a técnica dos esmaltes plumbíferos - que justificara a necessidade das separações de corda seca e de aresta - começara a ceder o passo à pintura cerâmica dita «pisana» ou seja, sobre azulejo plano.   

            Prosseguindo nesta nota prévia sobre o "autêntico Museu do Azulejo" que se nos depara e nos deslumbra cada vez mais, à medida que dele vamos tomando conhecimento visual e técnico, voltamos  aos manuais e aos estudos que deles têm sido feitos.
            Falou-se já de duas "idades da arte do azulejo"  . Falemos agora da terceira :
            É opinião das maiores autoridades sobre o assunto  que é nas casas de Afonso Brás de Albuquerque que se encontram os primeiros exemplares de azulejos pisanos, provavelmente feitos em Lisboa. Vimos atrás que Afonso de Albuquerque assinalou com a data de  1554 o fim das obras do palácio. No entanto, é convicção de que esta data deve referir-se à reconstrução da parte arquitectónica, já que, como veremos, ele próprio deve ter continuado ocupado com o aformoseamento dos jardins, e naturalmente, com a sua decoração. "Observamos igualmente que a azulejaria do tipo mudéjar sevilhano corresponde a modelos especiais denotando um propósito de « novidade » .
            Por sua vez, quando nos interrogamos sobre as razões que teriam levado Afonso de Albuquerque, a empregar - nesta fase - azulejos de superfície plana, preferindo-os aos de aresta,  pantenteia-se perante nós uma muito forte e justificada; "(...) o desejo de dar à sua casa esse carácter moderno tão característico do «renascimento». É que os azulejos relevados de Sevilha, ainda que adaptando ornamentação da gramática italiana do «quatrocento» continuavam pela ordenação geométrica  e pelo brilho dos esmaltes a sugerir o « mudéjar » ou « mourisco » pertencentes a uma linguagem ultrapassada" (S. S.)

            Além disso, o novo azulejo era plano, mais simples, de coloração mais suave, adaptando-se melhor à arquitectura das «villas». Os mensageiros desse  novo gosto decorativo para Espanha e Portugal haveriam de dar o golpe de misericórdia na azulejaria de tradição mourisca (na nossa região Afonso Brás de Albuquerque, e D. Diogo D'Eça, na Quinta das Torres são disso exemplos) .

            Podemos conjecturar que Afonso de Albuquerque poderia ter importado estes novos azulejos directamente da Flandres ou mesmo de Sevilha , onde já se fabricavam, mas "julgamos que preferiu tentar o recurso aos « malegueiros flamengos de Lisboa » . De facto, a análise dos azulejos «pisanos» da Bacalhoa revela características tecnicas e artesanais que os afastam dos tipos conhecidos  daqueles centros cerâmicos, espanhois ou flamengos, dando mostra de originalidade bem diferenciada". (S.S.)

            Na complexidade da azulejaria presente na Quinta da Bacalhoa há que distinguir mais de um tipo de azulejo, uma vez que são patentes diferenças de qualidade .
             Uma primeira destrinça se deve fazer entre os azulejos destinados à decoração abstracta - tapetes de padronagem de repetição - e aqueles formando «quadros» ou painéis historiados. Assim mesmo, em cada uma dessas classes ainda há que distinguir os que parecem poder atribuir-se a um bom artista pintor e os que lhe são manifestamente inferiores em qualidade.
            Postas estas considerações deveremos ter uma noção mais exacta do que se vai deparar perante nossos olhos, dado que, extasiados pela beleza e profusão deste invulgar património artístico e cultural, poderemos não estar inteiramente receptivos ou atentos ao "cicerone".

 

SEGUNDA ETAPA ...
 
            Retomámos a visita, olhando a perspectiva tirado ao enfiamento da portas abertas que interligam as galerias: 
            As portas de acesso aos compartimentos maiores são sobrepujadas por nichos onde, muito provavelmente, teriam havido estatuetas de terracota. Sob os nichos, ermos, podemos observar azulejos planos com os seguintes letreiros:  IVSTIÇA,  PRVDEMCIA,  TÊMPERANÇA e FORTALEZA, acusando no tipo de pintura e no material a mesma procedência dos azulejos de padrão. Mais notáveis, porém são as guarnições dos rodapés do primeiro e quinto compartimento, formadas por placas rectangulares de 13x26cm ostentando, no primeiro, onde estamos,  "uma teoria de «grotteschi» com sereias e grifos. Faltam, infelizmente, os azulejos da parte central da parede maior, um dos quais, ainda em 1897,   A. Blanc reproduziu, e no qual se liam as três últimas letras do que se tem por suposto  ter sido o nome do pintor responsável pelas obras : ... TOS .
            Permanece, misteriosamente, a interpretação destas letras. É natural que, conhecendo-se o nome de Francisco de Matos, assinando os Painéis de S. Roque em 1584, tivesse ocorrido que o ...TOS ligado ao cronograma 1565 , fosse de uma e mesma pessoa.
            No entanto, não só a diferença cronológica - 19 anos - como principalmente, a disparidade morfológica e técnica, parecem opor-se a uma identificação entre os autores das duas obras.

A descoberta de um pintor de azulejos com o mesmo apelido  - Marçal de Matos, provavelmente avô de Francisco  - dado como «pintor», e ainda as íntimas ligações deste com «malegueiros flamengos», precisamente em 1575, parecem trazer mais uma achega para o esclarecimento da azulejaria da Bacalhoa e aos inícios da fabricação de azulejos em Portugal. Se tais ligações são pertinentes, poder-se-à concluir que a azulejaria «pisana» da Bacalhoa  se deve ligar  à actividade desses ceramistas flamengos, e que com eles terá colaborado, como «pintor», Marçal de Matos.       
            Continua a ser prudente não aceitar esta hipótese como única plausível. No entanto, no estado actual dos nossos conhecimentos, e até prova em contrário, é ela a que mais logicamente explica o surto de fabricação azulejar no nosso país, pedra angular de todo o edifício que, a partir dos princípios do século XVIII, já assenta em bases sólidas e concretas.
            Numa descrição publicada em 1895 por  Theodor Rogge, professor de desenho e estudioso alemão,  sobre   os Azulejos da Bacalhoa, extraímos o seguinte, sobre o primeiro pavilhão da Casa do Lago: "(...) N'este pavilhão distinguem-se pela belleza as duas tarjas, que no rodapé e junto ao tecto limitam o azulejamento das paredes; são pintadas em quadrangulos de 0,270m x 0,135. A tarja superior representava um ininterrupto panorama de montes, castellos, habitações, riachos, a que dão vida creanças que jogam, brincam, banham-se, que occupam em variados misteres, ou em infantis folgares. A tarja inferior é uma delicadíssima composição de flores de phantasia , rematada  nos angulos da casa e nos cunhaes das portas e janelas por meios corpos phantasticos de homens ou mulheres, que um capricho do desenho fez sair da extremidade de um ramo  ou da corolla de uma flor.´"
           
            Quanto ao que concerne ao presumível autor dos azulejos, Theodor Rogge, desenvolve uma teoria baseada em analogias ou repetições, que na sua opinião existem, em alguns dos painéis historiados, nos   revestimento de bancos alegretes ou de galerias e loggias e que, para ele, são como que assinaturas.             Vejamos :

            (...) É no centro d'esta ercadura, na parede do fundo, que n'um cartoccio está o nome do auctor da composição, e que para evitar repetições lançou aqui um traço de união para reconhecimento dos seus trabalhos, que no azulejamento abundam. Repare-se na forma do pequeno cartoccio que contém a palavra MATTOS.  (56) e  ver-se-hão reproduzidos os seus traços no emmoldurado do escudo de armas da loggia ocidental, o mesmo se dá nos dois rios da loggia do palácio, da que olha o jardim. Há aqui também uns caracoes, umas borboletas, e outros pequenos animaes, que passam para o revestimento dos assentos e alegretes de um quadrangulo cerrado de muros, que serve de vestìbulo descoberto ás galerias do lago; no quadro que representa o Nilo lá se vêm uns patos que nadam ou mergulham, reproduzidos no quadro de Suzana no banho, e um pequenino ornato igual ao que antecede e se segue ao nome MATOS." (Th. R.)

Foi-me mostrado pelo Padre Manuel Frango de Sousa - que penso ser,  na actualidade, aquele   que está mais habilitado
 a falar sobre os azulejos da Bacalhoa - fotografias de fragmentos de azulejos pertencente a frisos ( do grotesco ) que tudo indicam ser o fragmento que falta para completar a palavra MATOS,  do rodapé deste compartimento da casa do Lago.
            Ao juntarem-se a imagem dos fragmentos achados com a copiada em aguarela,  vê-se nitidamente que formam o conjunto.
            Recentemente esta "descoberta" foi levada ao conhecimento público através do Boletim do Museu do Azulejo .  
            No  quinto  compartimento da Casa do Lago, - que convém lembrar também é conhecida por Casa de Prazer - o  rodapé está íntegro e mostra os « grotechi » tendo como motivos libélulas e macacos.

            Estamos agora no pavilhão central.
            Neste compartimento estão os três mais notáveis painéis historiados da Bacalhoa, dos quais, apenas um se encontra íntegro. Cada um destes quadros ou painéis têm igual dimensão - 8x14 azulejos - representando respectivamente a cena do "Rapto de Hipodémia",  uma « patomaquia »    - o Rio Tejo -  e a cena de "Susana Surpreendida Pelos Velhos", este ostentando o cronograma 1565.

            Apenas o último se apresenta completo, tendo os outros dois sido vandalizados com a perda de muitas peças. Os três quadros têm a limitá-los um friso ou tarja de sabor clássico, pintado a azul.

            "(...) O artista pintor responsável por estes quadros, teve à sua disposição estampas que reproduziu com extrema fidelidade.  Assim, o Rapto de Hipodémia - que alguns julgam ser o "Rapto das Sabinas" - foi feito sobre uma estampa de Aeneas Vico, datado de 1542 ( Mrs. Scoville encontrou a estampa na Colecção do National Gallery de Washington )(57) modelo que foi utilizado por ceramistas flamengos e italianos. (58)

            Quanto à cena de Susana e os Velhos, é também feito segundo uma estampa de Aneas de Vico, reproduzindo o célebre quadro de Ian Metzjs que se guarda no Museu de Bruxelas. ( este painel tem pintado sobre um pórtico uma datação - 1565 - igual à que Afonso de Albuquerque, filho, mandou gravar como data do acabamento das obras)

            Notaremos que as gravuras de Aeneas Vico foram um verdadeiro manancial de inspiração para os ceramistas flamengos e para os últimos majolicários italianos, sendo notável o grande quadro cerâmico representando a "Conversão de São Paulo", que se guarda na Vieille Boucherie de Antuérpia, atribuído a Ian Van Boghart e datada de 1547. (S.S.)

Quanto à alegoria ao Rio Tejo - infelizmente com grandes lacunas - ela provém de gravuras flamengas muito usadas como ornatos em mapas ou vistas da cidade. São conhecidas algumas destas «potomaquias», como por exemplo, as das vistas de Visser, ornamentadas por Ian Floris de Antuérpia.
            Sobre estes três quadros será curioso e importante saber o que diz o já citado Theodor Rogge :

            "(...) A composição do quadro de Suzana e do que lhe ficava fronteiro, mostram que Matos (O cronista não tem dúvidas sobre a autoria) era um pintor de raça, capaz de abordar todos os generos de pintura. Sobre os barro, n'um trabalho em que tem de primor a ligeireza, em que não ha retoques nem mimos de execução, vê-se o genio valente do artista , que não se prende, nem vacilla, um pincel que segue rapido a inspiração que o dirige. Nun accessorio do quadro de Suzana, no portico do palacio de Joaquim, lê-se a data de 1565; n'um lago proximo nadam uns patos como na agua do Nilo da varanda oeste do palacio; no tocado de Suzana nota-se  um adorno de tecido ligeiro, igual na fórma e côr ao do segundo medalhão do lago, parecendo que um deu a idéa do outro, e que o artista n'este se inspirou.

            O quadro que lhe é fronteiro, a mais de meio destruido , parece representar um festim, em que os commensaes, mulheres e homens nus, atacados de improviso se defendem. Vê-se ainada a parte de uma mesa , alguns vasos por terra, um homem que puxa da espada, cuja bainha pende de um balteum, posto sobre as carnes, e algumas outras figuras. Na parede do fundo um quadro, quasi aniquilado, representava o Tejo ..."   

            Os compartimentos maiores da Casa do Lago estão revestidos de azulejos de aresta. Nas paredes fundeiras, porém houve painéis cerâmicos: os do segundo compartimento desapareceram totalmente, ficando apenas o alvéolo; o do quarto compartimento ostenta hoje uma composição heráldica com as armas  dos Albuquerques-Mesquitelas.  (...) n'um escudo de fórma muito caprichosa, envolvido em ornatos de enrolados , genero de cartoccio typico do auctor, decorado com duas cabeças de satyros. O escudo é esquartelado como o do portão meridional do pateo. No primeiro  e quarto quarteis as armas do reino com oito castellos na orla, esta roxa, certamente porque o fogo alterou o vermelho, aquelles amarellos, as quinas azues em campo branco, no segundo e terceiro quarteis cinco lizes amarellos em aspa sobre campo azul. (Th. R.)             

            Trata-se, no entanto, de um painel feito no século XIX, procurando substituir outro original, cujo paradeiro se desconhece mas de que se encontram algumas peças na própria Quinta da Bacalhoa.
            Para o guarnecimento parietal dos três compartimentos menores da casa do Lago elegeram-se quatro padrões diferentes, todos de esquemas radiais e apresentando as mesmas tonalidades: azul, amarelo-claro, verde de cobre e roxo, ou ocres de manganês.
            Os esquemas ornamentais são de inspiração italiana e o padrão completa-se com quatro azulejos iguais. 
            "Ainda que pouco distanciados no tempo, pensa-se que os azulejos de padrão empregados na quinta se podem separar cronologicamente em duas encomendas, pertencendo os da Casa do Lago à primeira, entre 1560-1565 . No entanto, chama-se à atenção para o guarnecimento do paredão que limita o tanque pelo poente. Aqui é manifesto que se começou por eleger azulejos de «aresta» - provavelmente - da última encomenda de Sevilha - de um padrão que se afasta da gramática usual. Ou porque não chegassem para completar a decoração ou porque se tenha resolvido reproduzir em azulejo « pisado » o mesmo desenho, são desta última técnica  alguns "remendos" acusando incidências técnicas patentes na má fixação das cores. Teriam sido verdadeiros ensaios e daí, as primeiras tentativas de pintar com cores de Pisa ? O esquema ornamental é sensivelmente o mesmo que encontramos - agora perfeito nos contornos e na fixação das cores - no primeiro compartimento, o que pressupõe que o artista responsável por estes já tinha adquirido maior segurança no emprego das cores e no doseamento do fogo. " (S.S.