HERÁLDICA E GENEALOGIA
Na família dos Menezes se originou a dos Albuquerques, uma das mais distintas de Portugal, porque ao sangue esclarecido da linhagem de que provera, juntou a de outras muito ilustres e o das casas reais de Castela e de Portugal.
D. Afonso Teles de Menezes, filho de D. Telo Peres de Menezes e da sua mulher D. Guntrode Garcia de Vilamaior foi segundo senhor de Menezes, Medelim, Monte Alegre e outras terras e o primeiro povoador de Albuquerque, vila de que também teve o senhorio. Morreu no ano de 1230 e foi sepultado no mosteiro de Palaçuelas. Casa-se duas vezes, a primeira com D. Elvira, filha de D. Rodrigo Gonçalves Girão, rico-homem e senhor da casa dos Girões, e de sua mulher D. Maior, de cujo matrimónio deixou descendência, que depois seguiu o apelido Girão ; e a segunda vez com D. Teresa Sanches, filha bastarda de D. Sancho I de Portugal, de quem teve D. João Afonso de Menezes, que sucedeu nos senhorios de seu pai e foi rico-homem e alferes-mor de D. Afonso III de Portugal, seu primo coirmão.
D. João Afonso de Menezes foi casado, mas é incerto o nome de sua mulher, pois três lhe atribuem. Segundo o Conde D. Pedro, chamava-se D. Elvira Gonçalves Girão, filha de Gonçalo Rodrigues Girão do qual teve vários filhos que seguiram o apelido Meneses e entre eles D. Rodrigues Anes Teles de Meneses, que sucedeu a seu pai na casa e terras, e, em tempo do Rei D. Afonso X de Castela, foi terceiro senhor de Albuquerque. casou-se com D. Teresa Martins de Soverosa, filha de D. Martim Gil de Soveral e de sua mulher, D. Inês Fernandes de Castro, de cujo matrimónio nasceu D. João Afonso de Albuquerque, o primeiro que usou este apelido, tirado da vila de que foi quarto senhor.
Sucedeu D. João Afonso em toda a casa de seu pai : foi muito bom cavaleiro, teve o título de Conde de Barcelos por carta de 8 de Maio de 1298 e exercitou o ofício de mordomo-mor de D. Diniz. Fez testamento no ano de 1304.
Casou-se duas vezes; a primeira com D. Teresa Sanches, filha bastarda de D. Sancho IV de Castela, de quem deixou geração, em breve tempo extinta ; a segunda, com D. Maria Coronel, filha de D. Pedro Coronel, ficando deste matrimónio D. Teresa Martins, que alguns autores dizem ser filha da primeira mulher, a qual se recebeu com D. Afonso Sanches , filho bastardo de D. Dinis e D. Aldonça Rodrigues Telles.
De D. Teresa Martins e de seu marido provêm os Albuquerques, a quem João Rodrigues de Sá nas suas coplas dedicou o seguinte :
As cinco flores de lys
com quinas em quarteirão
os Albuquerques trarão
aos que del rei dom Denys
trazem na geração
E por tocar tão estado
bem merece ser honrado
sempre que tem tal mistura
per tão honrada natura
dyno de ser nomeado.
As armas antigas eram de vermelho com cinco flores-de-lis de ouro.
Timbre uma asa de negro, com cinco flores-de-lis de ouro em sautor.
Modernamente usam: Esquartelado o primeiro e o quarto, de prata. com cinco escudetes de azul postos em cruz, cada escudete carregado de cinco besantes de preto. em sautor; o segundo e o terceiro, de vermelho com cinco flores-de-lis de ouro postas em sautor.
Timbre: um castelo de ouro, rematado por uma flor-de-lis do mesmo; ou uma asa de negro, carregada de cinco flores-de-lis de ouro postas em sautor. O primeiro e o quarto quartéis nem sempre se apresentaram de Portugal antigo, mas com bordadura de vermelho, carregado de sete castelos de ouro e um filete negro em barra.

AFONSO BRÁS DE ALBUQUERQUE
Num nicho que encima a porta da entrada do Palácio da Bacalhoa, vê-se um busto de barro, bem modelado e de proporções naturais. "Mostra um varão na força da vida, cabello sobre o curto e cuidado, barba despontada como na epocha de João III, o rosto oval, o nariz aquilino e a fronte espaçosa, a expressão é clara e de distincta serenidade. veste de um tecido de malha, virando-se como golla em bicos, deixa o pescoço a descoberto. Do hombro cae até meio braço um adorno do mesmo tecido e tambemem bicos. Duas largas faxas, como pontas de um manto, traçam-se sobre o peito, ligando-se em nós sobre os hombros talvez o diplax dos philosophos ...
(...) Na frente do que forma o assento da figura ha um listrão com as extremidades enroladas, como que destinado a um nome, que não tem, pois mal ficava n'um retrato. Não lhe pude achar monogramma, assignatura, ou marca de auctor. É crido, como a reprodução fiel de Albuquerque, filho.
O logar que occupa competia de direito ao senhor da casa. (J.R.)
É este o retrato de Afonso Bráz de Albuquerque, ou, como também o chamam, Afonso de Albuquerque, filho.
Mas quem foi este importante fidalgo, diplomata, político e escritor. que teve influência fundamental para a historia da nossa freguesia :
"(...) Affonso de Albuquerque, o Grande, saindo para a India em 1506, deixou no reino um filho natural, por nome Braz, legitimado por carta regia de 26 de fevereiro do mesmo anno. Braz teria uns cinco annos, e ficou entregue aos cuidados de sua tia materna D. Izabel de Albuquerque, casada com D. Pedro da Silva ...
Se não pôde gosar os carinhos do pae, teve d'elle um dos seus ultimos pensamentos. A 15 de dezembro de 1515 Affonso de Albuquerque, de bordo da nau Flor da Rosa, caminho de Goa, escreveu ao rei D.
Manuel uma carta em que lhw dizia :
« Senhor, quando esta escrevo a Vossa Alteza, estou com um soluço, que é signal de morte. N'esses reinos tenho um filho, peço a Vossa Alteza, que m'o faça grande como meus serviços merecem que lhe tenho feito com minha serviçal condição, porque a elle mando, sob pena de minha bençam, que vol-os requeira...»
No dia seguinte aquelle vulto immenso, aquelle genio assombroso, vergado ao peso de uma affronta do rei ingrato, era cadaver." (J.R.)
D. Manuel quando recebeu a notícia da morte de Afonso de Albuquerque e das sua últimas vontades expressas em testamento, tratou de imediato de chamar a si o herdeiro do Grande Afonso, "para dirigir a seu geito os cabedais que haviam de advir-lhe ... os haveres de Affonso de Albuquerque não podiam deixar de ir a algum da família do rei ou seu apaniguado."
Brás de Albuquerque entrou por ordem do monarca no mosteiro de Santo Eloi, a cujos cónegos foi confiada a sua educação e, para que ganhasse importância com um nome prestigioso e afamado. fê-lo trocar o nome que tinha recebido por baptismo pelo de seu pai Afonso de Albuquerque.
Era já mancebo de cerca de vinte anos Afonso de Albuquerque, filho, quando D. Manuel (em 1520) lhe destinou para esposa e para partilhar a herança do herói da Índia, D. Maria de Ayala e Noronha, filha do escrivão da puridade D. António de Noronha, conde de Linhares, fidalgo de parcos haveres, da casa de Linhares por seu pai e da casa de Bragança por sua mãe.
Para este casamento, D. Manuel concedeu-lhe um juro de 400$000 réis, e mandou-lhe pagar mais 180.000 cruzados dos soldos em atraso ao vice-rei da Índia e dois quintais de pimenta que também lhe eram devidas.
No ano seguinte, Afonso de Albuquerque, já genro do escrivão da puridade de D. Manuel, foi escolhido para com um grupo de fidalgos de alta linhagem para acompanhar a Saboya a infanta D. Brites, filha de D. Manuel, o Venturoso, casada com o duque Carlos de Saboya e teve nessa missão o comando de um galeão de 230 tonéis.
A infanta D. Brites tinha-se casado por procuração em Lisboa, no dia 7 de Abril de 1521, mas só no dia 10 de Agosto a frota que a conduziu saiu do Tejo, fundeando no importante porto de Niza no dia 29 de Setembro. Contudo, a sua entrada oficial na corte dos Saboyas só se efectuou em Maio do ano seguinte.
A oficialidade e fidalgos da armada, ociosos, faziam excursões por toda a Itália, em plena explosão do Renascimento. Afonso de Albuquerque aproveitaria para visitar as mais lindas cidades daquele país, onde as artes se desenvolviam extraordinariamente.
Entretanto, em Portugal o rei D. Manuel caia doente a 4 de Dezembro, tendo falecido a 13 do mesmo mês, uma sexta-feira, deixando por cumprir as promessas de satisfazer no filho os serviços de Afonso o Grande.
Depois de terminadas as obras, Afonso de Albuquerque, filho, com sua mulher e família, habitou o palácio, conforme consta em alguns contratos aqui lavrados por ambos.
Em 1568, sem sucessor, Afonso de Albuquerque (passará aqui no texto a ser assim identificado Braz de Albuquerque) e sua mulher a 27 de Janeiro "(...) vincularam a quinta de Azeitão, com seu assento de casas, pomar e vinha, cercados, fôros havidos e por haver , e as casas de Lisboa das Portas do Mar (Casa dos Bicos) que partiam com o Dr. Luiz da Veiga e com a mulher, que foi de Ayres Tavares, instituindo um hospital na igreja do bemaventurado S. Simão, que era junto da quinta de Azeitão, para n'elle se agasalharem pobres caminhantes."
O título foi escrito pelo capelão da quinta, o licenciado Aleixo de Albuquerque, que o fez a rogo dos instituidores, e foi aprovado no dia 28 de Fevereiro de 1568, "na quinta do sr. Affonso de Albuquerque pelo tabellião João Rodrigues" .
No dito hospital, que hoje se chamaria albergue «deveria haver cinco camas, em memória das chagas de Cristo. Em cada cama caberiam duas pessoas e teriam seus estrados de madeira, enxergão de palha, dois cobertores de almafega, uma manta do Alentejo, um travesseiro de lã e outro de almafega,. As roupas e camas deveriam ser renovadas annualmente. O albergado poderia demorar-se tres dias alem do da entrada, teria azeite para luz toda a noite e, durante o inverno, lenha para se aquecer e enxugar o fato. Vindo doente, poderia demorar-se cinco dias, recommendando á caridade dos administradores do vínculo, quando fossem na quinta, proverem os enfermos do necessário. Pedem aos albergados, que cada um reze cinco vezes o Padre nosso e a Avé Maria pela almas dos instituidores e de Afonso, o Grande » .
Para lhes suceder na administração do morgado nomeiam seu sobrinho André de Albuquerque, na condição deste escolher consorte na família de D. Maria Ayala de Noronha. Impõe ainda o vínculo aos seus futuros administradores que estes tomem o nome de Afonso de Albuquerque, e sendo mulher esse apelido. Cumpre ainda a estes fazer cantar em o dia de S. Simão uma missa com pregação e que o orador peça três Avé-Marias por alma dos instituidores.
A muitas outras obrigações ficam submetidos os herdeiros que venham a ficar como administradores do vínculo : "(...) não poderá suceder no morgado o mentecapto, o abreviado do juizo, o furioso, ou heretico, o que for contra o reino, a femea que não for virtuosa, ou fizer como tal usando mal de si; também não sucederá o que tiver defeito algum que não possa ser casado..."
Mandou Afonso de Albuquerque que se fizessem três tratados da instituição: uma para a Torre do Tombo; outra para o cartório do Mosteiro de Santo Eloi e a terceira para o administrador do Morgado.
A inspecção anual do albergue ficou a cargo do visitador do Arcebispado de Lisboa ou em alternativa ao Mestrado da Ordem de Santiago, conforme o primeiro que o visitasse.
O espírito de benfeitor de Afonso de Albuquerque e de D. Maria de Noronha não ficaria por aqui. mais tarde, a 20 de Julho de 1570, obriga-se por escritura à construção de uma Igreja para se fundar a nova freguesia de S. Simão. A conservação do templo também ficou a cargo do morgado.
Sobre as escrituras de obrigação para a construção da Igreja de São Simão e instituição da freguesia, em brochura editada especificamente para o efeito já delas dei conhecimento.
Acrescente-se ainda que: " o osprital de peregrinos em Azeitão e a egreja pegada com elle foram feitos com o produto da venda dos fóros de casas, que Affonso, o Grande havia deixado em Goa, para se dizer quotidiana por sua alma na capella de Nossa Senhora da Serra, por elle edificada sobre a porta por que o grande capitão entrára a cidade, e que lhe serviu de primeiro jazigo.
O remanescente d'aquellas rendas seria distribuido em esmolas, dadas ás sextas feira aos meninos orphãos filhos de portugueses.
Uma bulla pontificia auctorizou a permutação, ficando em Goa uma
renda de 40$000 réis para a missa quotidiana na capela.
Nos meados de 1570, já D. Maria de Ayala de Noronha não assinava os importantes documentos em que interveio seu marido, mas por um contrato de aforamento de 4 de Agosto de 1578 assinado também por ela, se confirma que ainda era viva.
Já muito idoso, mas achando-se capaz de passar a segundas núpcias Afonso de Albuquerque consorciou-se com D. Catarina de Menezes. Como era de prever, continuou sem geração legítima.
Faleceu Afonso de Albuquerque - talvez em Lisboa - a 6 de Maio de 1581, conforme se pode ver no assento de óbito, existente no Arquivo da Sé de Lisboa: "(...) a seis de mayo de 81 faleceo aº dalbuquerque e recebeo t.os os sacramemtos E fez testm.to e ficou sua molher dona cª por testam~etera e se mãodou enterrar ~e azeitam e por verdade asiney aqui dia mês e era ut supra petrus vaz cura".
Contudo, deixou legitimado D. João Afonso de Albuquerque, que por ser menor foi o Dr. Braz Dias de Abreu, Juiz dos orfãos, em Lisboa e das partilhas da fazenda de Afonso de Albuquerque que se propôs defender os direitos do menor, a quem foi dado por tutor António Fernandes da Silva .

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